Tuesday, November 06, 2007

medo

pelas contas que fez rapidamente de cabeça, realmente não tinha mais jeito. e agora? pára de se boicotar, arnaldinho, e o guri que quase nem era gente olhava pra cima, a cara da mãe lá no alto paralela ao dedo em riste. e o pai, sujeito todo apoio, profetizava: vai quebrar essa porra toda, troço caro na mão de criança não dá outra, batata. o que é boicote? o que é porra? arnaldinho engoliu dois soluços e correu, quase caindo, pro quarto no final do corredor. não aceitou, nem naquele dia nem em outro qualquer, o presente de aniversário. era lindo, sim, o violão, mas como é que se vive com a impossibilidade de ser inédito? pensa comigo, mãe. se são apenas sete notas, significa que todas as combinações estão gastas, e só me resta, assim, repetir o que já se escreveu. enxugando o catarro do choro com a camisetinha, fez ali mesmo o funeral: aqui jaz o maestro arnaldo coutinho, morto aos sete anos de pura desilusão.

1 comment:

Fabio Angelus said...

"...mas como é que se vive com a impossibilidade de ser inédito?"

Se você descobrir, promete que me conta?