se voavam, invertebrados. ossos pesam. preocuparam-se todos os adultos, houve correria, e alguém afastou martina do ponto onde a grama misturava-se aos restos do passarinho morto pelos cães de guarda. achou bonito o vermelho do sangue colorindo as penas, nenhum detalhe a impressionara, mas foi a visão daquilo que mais pareciam gravetos brancos que fez martina chorar. não chocada, mas impactada pela descoberta. tinham ossos, as aves. sentiam dor. quebravam. a inconsciência de criança mantém martina alheia às especulações - nada de detalhes sobre a morte. mas porque são precoces aos seis anos as meninas, preocupou-se martina com os filhotes, que agora piavam sem pausa de algum lugar do telhado. quem vai alimentá-los? morrerão de fome? se minha mãe é morta, ninguém me cobre de madrugada. talvez congelem.
acomodada na cama, martina sonha com um ninho feito de folhas secas e crina de cavalo. conta cinco bicos abertos, e o que se escuta é música. quando coloca as mãos sobre as avezinhas, percebe seus dedos esquentarem até sentir calor. são os ossos, martina, diz um dos filhotes de bico aberto. com eles nos aquecemos, por eles sobrevivemos. nós, passarinhos, somos mágicos.
Wednesday, July 15, 2009
Thursday, April 23, 2009
só
tornar-se um estranho, é este agora o seu dever. causar-me asco, dar-me náuseas, embrulhar minhas tripas à simples visão de sua figura. ensinar-me a análise fria de seus detalhes para depois concluir serem todos insignificantes, assegurando assim que nada de bom seja trazido à memória junto deles. assistir-me impávida e sonolenta diante dos seus sinais. entediada de sua voz. ansiosa pela sua partida. aliviada com sua ausência. ferida e feliz. cruelmente satisfeita com o vazio e a saudade, ignorante do sofrimento. é este agora o seu dever, é este agora o nosso acordo: sua didática versus minha força de vontade. venha e me derrote.
Friday, February 20, 2009
meio ano
há seis meses você saiu de dentro de mim. eu quis e lutei muito pra que fosse da maneira mais natural possível, mas havia uma grande chance de que você pudesse sofrer e eu não quis pagar para ver. foi quando abriram minha barriga num corte estreito e foi por lá que puxaram seu corpinho pra fora do meu. a gente tinha que se separar pra poder se conhecer, e confesso que durante um longo tempo eu sofri por essa contradição. senti você se esticando e empurrando minhas costelas por mais alguns dias mesmo depois de você já ter me deixado, até que compreendi seu coração como algo à parte do meu. você agora tem dentes, tenta ficar de pé, faz careta pra minha comida e ensaia um senso de humor bonito. eu admiro seu jeito de amar e sua boa vontade com o mundo. antes de te conhecer, eu tinha medo de que meu amargor de gente grande contaminasse sua ingenuidade, mas hoje vejo o quanto fui boba e precipitada - você me suaviza a cada dia. já não consigo mais passar pelas portas de casa com você atravessado nos meus braços de tão grande que você ficou. quando dormimos abraçados na cama, você esticado ao meu lado e eu repirando na sua nuca, seus pés já alcançam meu quadril e quase sempre me chutam nos seus movimentos ainda descoordenados de bebê. hoje mergulhamos os dois na banheira e brincamos juntos para comemorar mais uma vez seu nascimento. eu queria muito que você pudesse se lembrar de tudo isso depois de crescer. e é pra esse teodoro adulto que eu escrevo hoje - pra que ele possa, sempre que quiser, saber do meu amor de antigamente.
Sunday, February 08, 2009
sugestão de pauta
o compositor mora numa cobertura colada à montanha mais alta do bairro, duas corcundas de pedra que dividem zonas distintas da cidade. chega-se ao prédio de poucos andares subindo por uma seqüência de cinco ladeiras em curva, distantes alguns quarteirões da agitação da entrada do túnel que atravessa a barriga do morro, desembocando em são conrado. por ali não passam vans nem ônibus, e os eventuais carros que chegam até a pequena rua sem saída, com um amplo estacionamento em forma de praça, ou dirigem-se ao conjunto de três prédios que partilham da encosta, ou estão perdidos num trajeto equivocado, que desemboca inevitavelmente no condomínio marajoara. em meados da década de 90, o compositor procurou a imobiliária que detém quase cem por cento dos apartamentos e casas do bairro com uma proposta irrecusável, e arrendou os muitos metros quadrados com vista tanto para a praia quanto para a montanha. assim morava até o ano passado, quando investiu também na compra do 1002, construindo uma escada para ligar o que agora funciona como dois andares. no térreo, uma área privativa com dois quartos e escritório, banheiros e uma sala ampla repleta de sofás para os dias solitários na semana. no outro pavimento, o acesso da área social leva a uma cozinha, sala de jantar, estúdio e uma varanda que circunda toda a extensão do apartamento, encontrando-se com o deck da piscina um pouco depois das duas enormes portas de vidro. é ali que, no final de semana, amigos e filhos do compositor se reúnem para ouvir histórias sobre produtores, técnicos de áudio, fãs, empresários. hoje, uma segunda-feira à tarde, não há nenhuma visita para o compositor, com exceção da inexperiente jornalista enviada pela revista de celebridades e seu fotógrafo a tiracolo. de camisa azul, bermuda e chinelos, o compositor responde às perguntas curtas antes de sentar-se à beira da água, para a sessão de retratos. por estar de costas para a montanha, ele mal pôde ver quem arremessou a primeira pedra lá de cima do dois irmãos, e só tomou conhecimento do incidente por causa do barulho que ela fez ao cair na piscina. enquanto virava o pescoço em direção ao mirante do morro, outros dois pedregulhos mergulharam quase no mesmo lugar, debaixo do trampolim de fibra. o compositor ergueu-se com um pouco de dificuldade, os joelhos estalando enquanto se equilibrava espalmando as mãos nos quadris, deixou cair os óculos de propósito, e esticou um dos braços para apontar dizendo "olha lá onde eles ficam". não era a primeira vez que isso acontecia, explicou, e aquela quase agressão tornara-se, para ele, um relacionamento. a pedra atravessava metros e metros até afundar na água, o compositor a resgatava e, ainda que discretamente, sorria para os mesmos três moleques no mirante. no jardim, junto ao bambu japonês e o pé de romã, uma prateleira exibia minerais de formas e tamanhos variados, itens de uma coleção enorme em homenagem àquela quase amizade. um mês depois desse dia, com a mesma camisa azul, bermuda e chinelos, o compositor estampava, nas bancas, a capa da tal revista de fofocas, ao lado das semanais que noticiavam a queda de um presidente latino-americano. na foto principal, ele aparece sentado em meio às suas pedras e de costas para a grande montanha, numa metalinguagem que só mesmo a jornalista inexperiente poderia imaginar.
Saturday, February 07, 2009
natimorto ou mea culpa
eu tive medo de amar você. porque quando te vi eu soube que iria amar você, não tinha como evitar. acho que nunca te disse isso, que previ minha total impotência no primeiro minuto em que você apareceu na minha frente. mas eu amarelei. você era tanto, e eu sempre fui tão pouco. grande, colorido, leve. óbvio que meu peso e meus tons de cinza te cansariam em algum momento. e você ia fugir. foi antecipando essa fuga que preferi, eu, sumir aos poucos, me escondendo todas as vezes em que você tentava me vasculhar. eu só não contava que você me descobrisse assim tão facilmente, e muito menos que, ainda depois disso, insistisse em ficar. eu, tão pouco interessante. como? e foi por não acreditar nem em você nem em mim mesma que tive medo de te amar - e de, em pouco tempo, te perder. preferi não te ter a ver você partir. e o resultado é que, hoje, quando sonho ou penso em você, choro e sinto o luto desse amor que eu matei.
Saturday, January 10, 2009
toda quarta, sempre à tarde
já eram 14h45, e jonas viu que ia se atrasar. o trânsito àquela hora na pasteur não poderia estar pior, e pra completar ainda chovia. começou a imaginar dona estela pondo a mesa, primeiro abrindo a toalha plastificada por cima da mesa, então dispondo nas mesmas posições a margarina, o açúcar, os guardanapos de pano, pratos, copos e xícaras, talheres, bolo, cesta com pães e os bules de café e leite. ia faltar a geléia, mas ele como sempre diria "pode deixar que eu busco", ela sorriria e ele gentilmente já ofereceria o pote sem a tampa. exatamente os mesmos diálogos, a mesma cordialidade, o mesmo roteiro sem qualquer alteração, tudo milimetricamente igual há um ano e sete meses. uma vez por semana, jonas percorria as ruas desde vargem grande até a urca, no meio da tarde, para visitar a viúva do general reformado que ele arremessou para o alto num descuido ao sair da faculdade, em copacabana. ele acelerou o carro, o homem caminhava pela calçada, e os dois se chocaram num barulho seco e muito curto. agora, o rapaz dobrava a esquina na cândido gaffrée, já procurando por uma vaga naquele quarteirão movimentado por causa do horário de saída da escola no começo da rua. as amêndoas caídas na calçada sempre se colavam nas solas do tênis de jonas, e ele gastava alguns minutos esfregando os pés no capacho do hall de entrada do prédio. o lugar não tinha elevador, mas dona estela morava logo no primeiro andar, o que tornava a subida um esforço mínimo. não havia abraços, muito menos beijos de simpatia, e o cumprimento se resumia a uma sutil reverência de ambos, com os olhos indicando um certo nível de afeição e intimidade. vasinhos de violeta, biscoitos amanteigados ou uma revista de palavras cruzadas eram os presentes que jonas ofertaria, sempre tomando o cuidado de não repetir o gênero por duas semanas seguidas. hoje é dia de biscoitos, e ele sabe que ela vai agradecer e colocá-los dentro do pote em cima da geladeira. conversam sobre o clima, os acontecimentos do bairro, eventualmente um ou outro crime importante que esteja movimentando a opinião pública, e lentamente o relógio se arrasta até as 16h. ele pede desculpas por sair assim tão cedo, há uma porção de afazeres ainda para hoje, e dona estela o acompanha até a calçada, acenando de longe enquanto o carro buzina e jonas expira uma mistura de alívio e culpa.
Friday, January 09, 2009
coração de mãe
ana, oi. olha, pára com isso. por que você saiu daquele jeito? se descabelando, chorando, fazendo o maior auê, vizinho vai ter assunto pro semestre inteiro. porra, não tem cabimento, que tempestade em copo d'água, mulher. ã? eu, cafona? dane-se, ok, não tô nem aí, só quero que você pare de frescura e deixe os outros serem felizes também. sim, eu sei. ahã. sim, claro. mas e o que isso tem de mais? diz, o que tem de mais. eu não vejo problema algum, te juro. sim, eu entendo, mas isso não quer dizer que eu tenha que concordar com tudo que você diz. ah, insensível é você, nem vem. há, essa é boa! não estou invertendo papel nenhum, que mania. veja, a neusa é uma pessoa tão doce, mas tão doce, tem o maior carinho pela menina. trata como se fosse filha mesmo, sabe? como assim? ué, e você queria que ela tratasse sua filha mal? beliscasse a raquel, botasse de castigo? porque tem gente que faz isso, não sei se você sabe. volta e meia aparece na tv, os telejornais sempre mostram. tipo umas crianças torturadas, babá desce a mão e os pais botam câmera escondida. não tô mudando de assunto. só quero te mostrar que essa discussão toda é uma besteira tão grande que não me conformo de ter que ficar aqui perdendo tempo e batendo boca com você. não, eu não tenho compromisso. sim, tem o almoço na minha mãe, mas não tem problema se eu me atrasar alguns minutos. ó, não ofende, deixa minha mãe fora disso. vamos resolver, sério. te pergunto, que mal tem, ana? hein? fala, pô. alô, ana? ana-a? oi, ai, pensei que tivesse caído. então, eu só quero dizer que se a menina quer fazer isso pela madrasta, não tem problema, poxa. eu sei que você não morreu, ana, é só um jeito convencional de se chamar a pessoa. não, eu não quero que você morra. eu só quero, tá prestando atenção? eu só quero que você relaxe e autorize a raquel a entrar com a neusa na igreja, simples assim. eu sei que você já sabe o que eu tô pedindo, não estou te chamando de idiota. ai, cacete. é que com você as coisas são tão longas e complicadas, sempre foram. ana, calma, não desliga. vamos resolver. ana, alô? alôu?
Tuesday, January 06, 2009
macarrão fresco
- tá ouvindo?
- tô
ela não estava ouvindo, que eu sei. até porque, com o violão desafinado daquele jeito, não dava pra escutar nada, nem que ela quisesse. como ainda não tinha percebido? jesus, olha esse dó sustenido. acontece que eu precisava contar, mesmo sabendo que seria uma amostra do meu mais grotesco egoísmo, e ela ia ter que ouvir acima de toda a distorção. é certo que eu pensava quase zero nela e uns noventa e quatro por cento em mim mesma, mas.
- paulinha, coração, dá um tempo, a gente precisa conversar
- fala, beta, tô ouvindo, já falei
- você reparou que esse violão tá fora do tom, né?
- eu sei, a madeira do braço escangalhou com a umidade do banheiro, gosto de tocar enquanto o guilherme se barbeia, pra fazer companhia. tô pra mandar pro conserto mas fico enrolando
- hum
- era isso que você queria dizer? do violão?
- também, mas tem um negócio mais importante
- sei. que é?
- olha só
guilherme girou a chave na fechadura e apareceu com várias sacolinhas plásticas de mercado fazendo vergões roxos nos pulsos e nos dedos, um peso imenso e mal distribuído. a paula vivia enchendo o saco dele dizendo que o certo é levar aquelas bolsas reaproveitáveis, pra não entupir o meio ambiente com lixo desnecessário e todo aquele papo de você sabe quanto tempo um plastiquinho desses leva pra se decompôr. acho que ele não ligava. trouxe tomates, manjericão, queijo branco, espaguete, suco e mais alguns tipos de pão.
- coloca na geladeira, amore, tô indo aí te ajudar. beta, amiga, conversamos depois?
é sempre assim. eu quero contar pra paula que não agüento mais esses almoços de sábado que ela e o guilherme oferecem, que não suporto mais esse apartamento e esse povo chato que ela convida, que o sabonete líqüido do lavabo fede e que só venho mesmo porque adoro paquerar namorado de amiga.
ela nunca me escuta.
- tô
ela não estava ouvindo, que eu sei. até porque, com o violão desafinado daquele jeito, não dava pra escutar nada, nem que ela quisesse. como ainda não tinha percebido? jesus, olha esse dó sustenido. acontece que eu precisava contar, mesmo sabendo que seria uma amostra do meu mais grotesco egoísmo, e ela ia ter que ouvir acima de toda a distorção. é certo que eu pensava quase zero nela e uns noventa e quatro por cento em mim mesma, mas.
- paulinha, coração, dá um tempo, a gente precisa conversar
- fala, beta, tô ouvindo, já falei
- você reparou que esse violão tá fora do tom, né?
- eu sei, a madeira do braço escangalhou com a umidade do banheiro, gosto de tocar enquanto o guilherme se barbeia, pra fazer companhia. tô pra mandar pro conserto mas fico enrolando
- hum
- era isso que você queria dizer? do violão?
- também, mas tem um negócio mais importante
- sei. que é?
- olha só
guilherme girou a chave na fechadura e apareceu com várias sacolinhas plásticas de mercado fazendo vergões roxos nos pulsos e nos dedos, um peso imenso e mal distribuído. a paula vivia enchendo o saco dele dizendo que o certo é levar aquelas bolsas reaproveitáveis, pra não entupir o meio ambiente com lixo desnecessário e todo aquele papo de você sabe quanto tempo um plastiquinho desses leva pra se decompôr. acho que ele não ligava. trouxe tomates, manjericão, queijo branco, espaguete, suco e mais alguns tipos de pão.
- coloca na geladeira, amore, tô indo aí te ajudar. beta, amiga, conversamos depois?
é sempre assim. eu quero contar pra paula que não agüento mais esses almoços de sábado que ela e o guilherme oferecem, que não suporto mais esse apartamento e esse povo chato que ela convida, que o sabonete líqüido do lavabo fede e que só venho mesmo porque adoro paquerar namorado de amiga.
ela nunca me escuta.
Tuesday, February 26, 2008
sem título
e tudo que sobrou foi um toco de cigarro amassado no cinzeiro branco, uma metade que você largou pra trás, fumou um pedaço e jogou fora, descartou o supérfluo, a casa, malas, livros, cachorro, inclua aí também o cinzeiro branco, você trancando a porta atrás das costas sem nem olhar ou dizer coisa, sobrou o eco exatamente igual àquele que já existia antes de você chegar e encher armários, despensa, minha cabeça com promessas e mentiras, palavras doces e coloridas como os balões que rindo compramos na lagoa, e soltamos o barbante só para vê-los fugir, achando aquilo tudo muito engraçado, e a vida valia tanto a pena enquanto os quatro balões subiam, e nós olhávamos o sol repartido no plástico cor de laranja, agora não faço idéia de quando será a próxima vez em que vou ter coragem de atravessar a rua, que dirá caminhar na lagoa, porque tudo parece chuvoso e solitário, talvez eu passe o resto dos dias sentado aqui no chão da cozinha, apoiando as costas na geladeira esperando você voltar com um ar de tristeza e arrependimento, testa franzida como você costumava fazer quando eu chorava no cinema, você me olhando sem entender o porquê de chorar num filme, que motivo havia nisso tudo, não vê, querido?, são só personagens, assim como nós dois éramos o elenco dessa história que você largou pela metade, livro mastigado até o meio, ninguém sabe o final, a platéia só imagina o que deve acontecer quando os créditos subirem, porque agora é hora de prestar atenção no que aquele ator tem a dizer, assim que tomar coragem, abrir a boca e desencostar da geladeira, quem sabe ele não corre até a sala, com pauladas destrói tudo que ela não quis levar, bibelôs, tv, sofá, e num último gesto de ódio e saudade, por que não, tudo é possível, vai ver ele até salva aquele toco de cigarro do cinzeiro branco e fuma até o final, enchendo o pulmão numa tragada de fumaça e agonia, pra depois liberar um grito que diz 'eu sinto sua falta, maldita. volta'.
Friday, January 25, 2008
carta a uma azeitona
não daria pra botar o mundo na ordem justa (sob o meu ponto de vista) antes de você chegar. é muito trabalho, ainda que o tempo não seja assim tão curto. daí que vou construindo aqui dentro mesmo uma reprodução do meu ideal, do seu ideal, porque sei que você já vai vir pronto em muitos sentidos - cheio de opiniões e referências, como se tivesse vivido muitos anos noutro lugar antes de vir pra cá. me encontrar. me flagrar em todas as minhas expectativas e insuficiências, e ainda assim me amar pelo simples fato de eu desejar te receber. na nossa pequena filial do universo, nada de perfeição ou aparências, só mesmo o que de mais importante eu gostaria de te apresentar: a liberdade.
anseio você,
mãe
anseio você,
mãe
Tuesday, November 20, 2007
cinzas
aquela porção enorme de carne estava lá exposta pra quem quisesse ver: um dorso liso e brilhante virado pra cima, a textura como uma bola de borracha, e o rasgo quase fundo que atravessava de uma ponta à outra o corpanzil inerte. dona barda não considerou lá uma grande notícia outra baleia encalhada na areia, mas ainda assim calçou os chinelos e fez o esforço de descer até a praia. considerando o horário, aproveitava-se ainda a viagem para apanhar o pão. gonçalo, o porteiro, tirou o interfone do gancho, para ninguém incomodar, e fez o mesmo, levando junto a sombrinha por causa da garoa.
- disseram que é pesada demais pra colocar no caminhão, explicou o rapaz com a mão esticada, apontando uma carreta na calçada. vão serrar em três, é a única solução.
dona barda sonhou, aquela noite, com os fragmentos da baleia dilacerada. despencando do alto sobre uma travessa de prata, as vísceras se amontoavam todas num barulho gosmento, umas desmaiando por cima das outras, numa pilha dantesca de sangue e ossos partidos. a morte é sádica, pensou, e eu é que não quero ser dividida em pedaços quando a má hora chegar.
gonçalo entrou com a família no apartamento usando uma cópia da chave, e logo ali já dava pra ver a velhinha morta, providencialmente instalada em cima do sofá. pensava em tudo, essa dona barda, até na hora de morrer tratou de se apoiar pra não ficar lá caída no chão. trabalho para quem fica, jamais, se isso é coisa que se faça. enquanto ia se deixando tomar pela nostalgia instantânea da antiga moradora, o porteiro viu o envelopinho apoiado na cristaleira. filhotes, meus queridos. passei desta, logo se vê. cremação é um troço digno, acreditem, talvez o mais digno para horas como essa. não me picotem, pelo amor, quero virar pó e me dissolver no mar. carinho, mãe.
- disseram que é pesada demais pra colocar no caminhão, explicou o rapaz com a mão esticada, apontando uma carreta na calçada. vão serrar em três, é a única solução.
dona barda sonhou, aquela noite, com os fragmentos da baleia dilacerada. despencando do alto sobre uma travessa de prata, as vísceras se amontoavam todas num barulho gosmento, umas desmaiando por cima das outras, numa pilha dantesca de sangue e ossos partidos. a morte é sádica, pensou, e eu é que não quero ser dividida em pedaços quando a má hora chegar.
gonçalo entrou com a família no apartamento usando uma cópia da chave, e logo ali já dava pra ver a velhinha morta, providencialmente instalada em cima do sofá. pensava em tudo, essa dona barda, até na hora de morrer tratou de se apoiar pra não ficar lá caída no chão. trabalho para quem fica, jamais, se isso é coisa que se faça. enquanto ia se deixando tomar pela nostalgia instantânea da antiga moradora, o porteiro viu o envelopinho apoiado na cristaleira. filhotes, meus queridos. passei desta, logo se vê. cremação é um troço digno, acreditem, talvez o mais digno para horas como essa. não me picotem, pelo amor, quero virar pó e me dissolver no mar. carinho, mãe.
Tuesday, November 06, 2007
medo
pelas contas que fez rapidamente de cabeça, realmente não tinha mais jeito. e agora? pára de se boicotar, arnaldinho, e o guri que quase nem era gente olhava pra cima, a cara da mãe lá no alto paralela ao dedo em riste. e o pai, sujeito todo apoio, profetizava: vai quebrar essa porra toda, troço caro na mão de criança não dá outra, batata. o que é boicote? o que é porra? arnaldinho engoliu dois soluços e correu, quase caindo, pro quarto no final do corredor. não aceitou, nem naquele dia nem em outro qualquer, o presente de aniversário. era lindo, sim, o violão, mas como é que se vive com a impossibilidade de ser inédito? pensa comigo, mãe. se são apenas sete notas, significa que todas as combinações estão gastas, e só me resta, assim, repetir o que já se escreveu. enxugando o catarro do choro com a camisetinha, fez ali mesmo o funeral: aqui jaz o maestro arnaldo coutinho, morto aos sete anos de pura desilusão.
Friday, October 19, 2007
outros tempos
ezequiel assustou quando o moleque puxou de baixo da camiseta furada um rocambole esfarelado. pensou que era uma arma, faca no mínimo, vai me matar aqui e agora na frente de todo mundo. pelo menos teria testemunhas, não era possível que ninguém naquela multidão se manifestasse a favor de um sujeito honesto e trabalhador. cinco neguinhos, cinco, um velho paraplégico em cima duma cadeira podre, dois vendedores de flores murchas, um fedelho que limpava pára-brisas e só uma menina no meio de tudo. cíntia e suas frutas. naquele dia trazia cajus, quando ezequiel jogou a mochila no chão na frente duma galeria de arte, a calçada meio imunda. estava disposto a começar noutro sinal, porque copacabana, diziam, era mais fácil que na barra. 40 segundos contra 1 minuto e meio, concorrência desleal. dava pra fazer um número rápido e ainda correr quase um quarteirão recolhendo as moedas. era basicamente assim: de uma mão para a outra, uma bola pesada de vidro deslizava pelas costas do malabarista, que depois ainda balançava os braços feito uma minhoca em transe para mostrar mais de perto sua arte para os motoristas. argentino, o ezequiel. com uns furos gigantes nas orelhas, dois brincos pretos do tamanho de jogadores de botão. a convivência começou capenga, mas com boa vontade vê-se, sim, que evoluiu. os mulambentos das flores, oras, hoje não filam mais cigarros, e vai ver que não foi mesmo nenhum dos dois que tentou levar na mão leve meus bilhetes de metrô. cíntia, por exemplo, que todo dia violava as caixinhas que a mãe trazia do ceasa só para oferecer um figo, uma goiaba. ezequiel odeia goiaba porque prende o intestino. no brasil, vai entender, as barrigas devem funcionar diferente. olha minha cicatriz do apêndice, e a pirralha balangava o bucho apontando com o dedinho um naco de carne grossa e mais escura que o resto do corpo. dizem que o argentino e cíntia juntaram dinheiro suficiente para alugar um sobrado em deodoro, que hoje a menina é maior de idade, e que trabalha num pedágio da via dutra, enquanto o marido estuda a arte do ilusionismo por correspondência. eu, por mim, penso que é tudo balela, coisa estúpida de gente que leu muito folhetim nos anos 30.
uma pasta no móvel da tv
não é que a gente tenha deixado de existir, nada disso. é que ficamos suspensos. pausados. imóveis esperando o estupro de cada memória, e vivos apenas por encher a barriga de expectativa. comi 853 dias e 5 horas, assim, pra arredondar. eis que deu pra ouvir e entender o que acontecia, daí que já tínhamos remexido metade de tudo, e as coisas aconteceram muito rápido. lembro que passou um filminho na cabeça, daqueles que dizem que passam quando a gente morre. talvez eu tenha morrido ligeiro, só pra experimentar. duas ou três úlceras expressas pensando nas possibilidades que não foram, normal uai, até que de longe fechou-se um ciclo e abriu-se outro. viramos uma nova folha em branco.
Monday, September 10, 2007
nelson wannabe
na casa de lucília, os seis gatos têm permissão para circular livremente por onde bem entenderem seus bigodes. um mais rechonchudo que o outro, como bonequinhas russas em forma felina, o último cabendo dentro do primeiro, quase, tamanha simetria. dirceu odeia os gatos de lucília. se incomoda com os pêlos que flutuam no ar o tempo todo, o modo como destróem os estofados, a ausência de qualquer dependência ou ligação emocional. cachorros são melhores, manifestou-se o implicante no almoço de domingo. lucília, apaixonada, sorria iludida, vendo na chatice do marido uma tolerável e até lisonjeira falta de conhecimento limitante, e quiçá recuperável. um rapaz a exemplo de seu marido, culto e bem criado, não se encontra em qualquer esquina. ainda mais filho daquela mãe, a viúva dorotéia. mulher como ela não se vê por aí, alguém comentou na praça. em resumo, queria ela, lucília, tornar-se a outra. a força, a independência, a vivacidade, tudo fazia desejar engoli-la, se fosse essa a maneira de abocanhar aquelas qualidades. que santa! que exemplo! o chamego com a sogra, no entanto, seguiu apenas até que dirceu, agora o insensível, fizesse a primeira maldade com um dos bichanos. foi o estopim para as idéias vis da esposa. lucília virou, ela própria, a fera. e pôs-se, assim, a detestar dirceu. tudo nele lhe causava asco - as observações ocas, o tique de estufar a barriga passados oito minutos exatos, o barulho ao mastigar. tornara-se insuportável a convivência. os trâmites da separação seguiam mansos, redigia-se à máquina o documento definitivo, e foi quando a mulher, aos prantos, deu-se conta da arapuca que havia, sem intenção, armado para si mesma. descartaria, sim, o traste, mas perderia por conseqüência dorotéia. oras, que deslize não pensar nisso antes, chiou entre dentes enquanto dava tapinhas de leve nas bochechas frias. no cartório onde foi apanhar o divórcio, não agüentou a previsão funesta de seu destino de todo solitário e desmaiou entre uns passantes, apoiando-se, que ironia, na fila dos noivos. foram três minutos até que voltasse a si e, com as mãos do ex-marido a lhe suspender, implorou sôfrega:
- agora, sim, meu filho, avisa tua mãe que espero por ela.
- agora, sim, meu filho, avisa tua mãe que espero por ela.
Sunday, September 09, 2007
a fêmea, o bicho, a flor
devoção, caros irmãos, devoção é a palavra. parem de culpar inocentes, apontar seus indicadores em direções equivocadas e embaçadas pelas trevas. olhem por suas janelas, louvem os quadris que balançam, as mãos finas que lavam sua louça, os seios firmes onde os senhores choram o futebol derrotado e as humilhações do cotidiano. o que está faltando mesmo em toda e qualquer freguesia é isso, conclua-se o diagnóstico. salvem-se, pois, irmãos. pratiquem, pratiquem, pratiquem, pois só a devoção à vossa esposa pavimenta o caminho para o céu.
amém.
amém.
Monday, July 30, 2007
orlando
a viagem era no tempo e subaquática, um luxo de tecnologia, e ia dar numa praia como qualquer outra. ainda pingando sal, por vontade própria ana ergue a pá acima da cabeça e dá um golpe certeiro na caixa de madeira que emerge instantaneamente da areia, na beirinha da água. tem forma de caixão daqueles de anjinho, quase sem acabamento, como se a pouca vida não justificasse o trabalho e o gasto com ornamentos. um par de botas de marujo pretas, de um material entre o vinil e a camurça, que ela puxa excitada de dentro do invólucro e imediatamente enfia nos pés. ana é a única menina na terra onde só os homens sobrevivem. quando o primeiro inspetor passa por ela, já longe do mar, ana estica o braço direito em uma saudação quase nazista, segurando a respiração por medo de que até seu fôlego transpareça feminilidade.
Wednesday, June 20, 2007
cotonete
essa noite, quando rodei a cabeça no travesseiro, senti um calorzinho sair pela orelha direita. era meu cérebro e, enquanto ele escorria fronha afora, ok que levasse mesmo embora onze neuras, incontáveis traumas e um par de tendências psicóticas. mas tinha que vazar tudo que era idéia? inconseqüente.
Monday, June 11, 2007
simpatizantes
de regata justíssima, os ramones com botox no tecido esgarçado, apanhou o ônibus pra região dos jardins. fez festinha pro cobrador, que resmungou alguma coisa e devolveu o troco. acabou se perdendo do grupo, manifestou sozinho e quase rolou a consolação depois de um toco do cara do isopor de cerveja. na dispersão, suspirou.
morreu ali, em frente à praça roosevelt, aconchegado no cachecol de penas roxas.
morreu ali, em frente à praça roosevelt, aconchegado no cachecol de penas roxas.
Monday, June 04, 2007
caran d'ashe
quis dizer a ele minha aquarela inteira. ou no mínimo fazê-lo saber que havia uma perspectiva, um tema livre, qualquer coisa que o valesse. só saíram rabiscos sem nexo e um engasgo desbotado.
a vida é uma caixa de lápis de cor.
a vida é uma caixa de lápis de cor.
rem
dessa vez a gente foi pra guerra de canudos - embora houvesse um prédio modernoso com pinta de atualidade. entre um andar e outro, na escada de serviço, dava pra ouvir a preparação dos soldados inimigos que iam descer pra nos atacar. a brilhante idéia de sair correndo foi minha e, quando vi, já pulava trincheiras e alguns defuntos recentes. foi quando fisgou o ciático num zunido e eu, que nem sabia que estava pelada, olhei pra bunda e vi o estrago: três tiros em lugares diferentes sangravam desde o cóccix até o calcanhar. a alforria, a volta pra casa, e de teleférico procurávamos, eu e o casal famosíssimo, um hospital pra extrair os projéteis. os globais ficaram na gávea, e segui subindo até a parada de porto de galinhas, onde o maquinista fez o favor de esquecer minhas malas de viagem. mamãe montou lépida na bicicleta e pedalou a ladeira com o comprovante de babagem em mãos. enquanto ela não voltava, inventei o passatempo: com a ponta da bic preta cutucava os buraquinhos alvejados, borbulhando o sangue e encostando a pontinha na bala pra dar barulho. a população local aplaudiu chocada.
Friday, June 01, 2007
café
é no "já vou" vazio que fica claro.
aflita, engole o vácuo e quase levanta, suspensa cheia de ar. agora aperta e assopra a caneca azul entre as mãos, fazendo ondinhas no café.
- voltei a roer as unhas.
- tinha parado?
- não sei. comecei a roer depois de você e, quando vi, tava nessa recaída.
- põe açúcar.
- tem açúcar, já, você me ofereceu antes. até girou a colherinha.
- lembrei.
- então, se você não estiver fazendo nada, pensei qu
- mas eu tô fazendo, sim.
- desculpa, não deu pra ver.
- não tem problema. é só que eu tô ocupado mesmo.
- lembra que você achava que era um disco voador quando nos despedimos lá fora? já eu, eu tinha certeza de que era algo a ver com fogos.
- queria te ver rir, tonta. fazia tempo, a última vez tinha sido dos chinelos, acho.
- você nunca respondeu minhas cartas.
- é porque nunca soube o que responder.
quis meter os dedos por baixo de um daqueles caracóis, mas achou impróprio. espalmou as costas magras, apoiando o dedão numa costela feito corda de viola. os peitos se espremiam e talvez os quadris fizessem força. não tocou sequer uma música, nenhuma luz brilhou ou mesmo alguém percebeu aqueles dois costurados num abraço mongo. entraram para os registros em silêncio, como qualquer outro acontecimento incrível de ordem galáctica. do banal para a efeméride foram apenas quatro segundos.
aflita, engole o vácuo e quase levanta, suspensa cheia de ar. agora aperta e assopra a caneca azul entre as mãos, fazendo ondinhas no café.
- voltei a roer as unhas.
- tinha parado?
- não sei. comecei a roer depois de você e, quando vi, tava nessa recaída.
- põe açúcar.
- tem açúcar, já, você me ofereceu antes. até girou a colherinha.
- lembrei.
- então, se você não estiver fazendo nada, pensei qu
- mas eu tô fazendo, sim.
- desculpa, não deu pra ver.
- não tem problema. é só que eu tô ocupado mesmo.
- lembra que você achava que era um disco voador quando nos despedimos lá fora? já eu, eu tinha certeza de que era algo a ver com fogos.
- queria te ver rir, tonta. fazia tempo, a última vez tinha sido dos chinelos, acho.
- você nunca respondeu minhas cartas.
- é porque nunca soube o que responder.
quis meter os dedos por baixo de um daqueles caracóis, mas achou impróprio. espalmou as costas magras, apoiando o dedão numa costela feito corda de viola. os peitos se espremiam e talvez os quadris fizessem força. não tocou sequer uma música, nenhuma luz brilhou ou mesmo alguém percebeu aqueles dois costurados num abraço mongo. entraram para os registros em silêncio, como qualquer outro acontecimento incrível de ordem galáctica. do banal para a efeméride foram apenas quatro segundos.
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