Monday, May 08, 2006

inferno astral

quando deu pra ouvir o barulho da pancada, que acertou com pontaria a base da cabeça e fez espirrar sangue em uns poucos papéis, a vontade que me deu era de fugir. de sair veloz como quem disputa uma corrida ou persegue o inimigo. e com uma frente de alguns metros de vantagem, fazer como nos filmes e dobrar esquiva uma esquina escura, respirando arfante encostada ao beco com cartazes e latões de lixo prateados. mas o clarão e a ferida aberta latejavam. e tudo que o pouco raciocínio sobrevivente à hecatombe permitia vislumbrar era a nítida necessidade de desaparecer. acima de desejar, eu tinha que correr. com uma mão apoiado nos joelhos moles, ergo a cabeça para preparar a posição de arranque. preparar, apontar... alguns cabelos estão grudados no contorno da orelha, outros formam uma pasta gosmenta na gola da blusa. soluços barulhentos começam a lamentar minha condição. repentido: meu único desfecho possível é a fuga. e ensaio o primeiro passo, dois, três, e agora estou trotando desengonçada uma marcha atlética risível e pouco eficiente. assim ela vai me alcançar. ou eu vou acabar me entregando. aqui estou, venha me pegar. não revido, você venceu. até porque, confessemos, ia ser bem difícil sumir de mim mesma muito tempo.

3 comments:

INVISIBLE RUDI said...

Desculpe! Não fui convidado, mas entrei aqui...esse último é triste,essa fuga esse desespero contido...você escapando entre os dedos (de você mesma)...dói...essa fuga tem que ser de você mesma...fugir do tempo...tem que ser!
Nunca fui bom com palavras, com gramática, com escritas...só gosto de ler e isso é bastante pra um sujeito que tem “tempo”...
A pergunta é: E se você não alcançar?E se você realmente conseguir fugir?Desaparecer!Casca!
...é cortante o que tu escreve,é belo,e ao mesmo tempo toda essa densidade é sensual sem ser...
gosto de teus becos,de tuas latas ...
Tomara que a tempestade passe logo e num dia desses de frio,a gente beba algo quente...e por horas possamos falar sem gravadores,sem canetas,sem hora...sem texto...sem pauta...desorganizados como uma velha tropa sem líder...
Beijos e gostei muito desse lugar...

Valente said...

melhor que lygia fagundes telles, confissão de leontina

angelo rossi said...

tava triste hoje. minha namorada pos as mãos no peito que nem um gato, aí passou. fica triste não..
isso é coisa que dá e passa
=)

um beijinho, meu anjo. gosto de quem escreve