Friday, June 01, 2007

café

é no "já vou" vazio que fica claro.
aflita, engole o vácuo e quase levanta, suspensa cheia de ar. agora aperta e assopra a caneca azul entre as mãos, fazendo ondinhas no café.

- voltei a roer as unhas.
- tinha parado?
- não sei. comecei a roer depois de você e, quando vi, tava nessa recaída.
- põe açúcar.
- tem açúcar, já, você me ofereceu antes. até girou a colherinha.
- lembrei.
- então, se você não estiver fazendo nada, pensei qu
- mas eu tô fazendo, sim.
- desculpa, não deu pra ver.
- não tem problema. é só que eu tô ocupado mesmo.
- lembra que você achava que era um disco voador quando nos despedimos lá fora? já eu, eu tinha certeza de que era algo a ver com fogos.
- queria te ver rir, tonta. fazia tempo, a última vez tinha sido dos chinelos, acho.


- você nunca respondeu minhas cartas.
- é porque nunca soube o que responder.

quis meter os dedos por baixo de um daqueles caracóis, mas achou impróprio. espalmou as costas magras, apoiando o dedão numa costela feito corda de viola. os peitos se espremiam e talvez os quadris fizessem força. não tocou sequer uma música, nenhuma luz brilhou ou mesmo alguém percebeu aqueles dois costurados num abraço mongo. entraram para os registros em silêncio, como qualquer outro acontecimento incrível de ordem galáctica. do banal para a efeméride foram apenas quatro segundos.

2 comments:

Eduardo said...

UAU.

Tá cheirando à realidade.

Dudu.

Isabella said...

Quando as coisas acontecem em segundos parece que tudo fica mais intenso, o coração bate mais rápido e as pernas bambeiam... ah essas são as sensações que não podemos deixar de sentir nunca!