Monday, June 26, 2006

tempos idos

o poeta chacoalha seus penduricalhos
abre um casaco cheio de métricas, frases de efeito
deixa cair uma rima
no assoalho trincado
e dobrando o corpo cansado
avista botas de uma menina
dá um passo pra trás em respeito

só quero o que é meu
duas sílabas consoantes
que por descuido
escorregaram de mim
deixa assim
minha mão na tua, encontro fluido
históricos conflitantes
e ofereço em troca um bem precioso:
eu

atônito o poeta ergue
a mão, o casaco, a rima
fita a menina
de botas
que, sorrindo, se entrega em verso
não me preocupa fazer sentido
ou se teu casaco puído
carrega mais tralhas que poderia

tudo que eu quero é você
tuas rugas inventadas
e teu olhar envelhecido
minha juventude agora é tua
desenhemos com giz na rua
um poema que chamarei "destino"
feito de palavras ingênuas
escritas por um menino
e colorido de uma felicidade estrangeira
da qual já havia me esquecido

Friday, June 16, 2006

do peito ou da onça?

há um mês e meio encontrei, camuflada atrás das paredes de um casarão na bela vista, uma fatia da minha família. nenhuma relação de sangue ou coincidências em certidões de nascimento: estes são irmãos por opção mútua. se foi imprescindível tirar o pó das amizades antigas, aquelas da época em que eu ainda não tinha ido pros pés do pão-de-açúcar, preciso dizer o quão incrível é a importância do elenco da peça "a casa" nessa minha volta a são paulo. houve noites, antes de conhecê-los, em que eu ia para a frente do antigo prédio da minha avó para contar as janelinhas e ficar, como numa tela amarelada, pintando na janela antigas memórias e momentos de pura felicidade. sentada na calçada, tomada pela mais cruel angústia, chorava, e lamentava sensações que, eu acreditava, não se repetiriam nunca mais. doce engano. do cheiro de bolo com café à baderna com os primos, do colo macio às conversas francas, esses novos amigos me abriram as portas e me ofereceram tudo que eu poderia querer - e precisar. caríssimos: obrigada por fazerem parte voluntariamente da minha vida. amo cada um, e faço questão que vocês saibam disso.

Monday, May 29, 2006

princípio do fim

feito bichos de pupilas dilatadas, todos na sala olimpicamente iluminada afundam a cabeça entre os ombros, como se por instantes fosse possível suprimir o pescoço da anatomia humana. o rapaz próximo à porta apóia o braço pelado numa tipóia e observa sua nova condição com curiosidade e um certo desespero. ele sente frio. lá fora o inverno grita, e a cada leve provocação ao sistema eletrônico que comanda a entrada do hospital - que abre de sopetão para manobristas, cachorros incautos e uma folha de jornal que passa às cambalhotas - se encolhem o rapaz, o braço na tipóia e grande parte dos pacientes que aguardam atendimento na noite cheia de quarta-feira. pfuuuu, assopra o vento gelado. doenças pioram à noite e no frio, é fato. a sala geme. duas crianças choram em cantos diferentes. e há um único sentimento unânime, além da dor: o medo. porque o desconhecido é tudo aquilo que nos une e nos iguala.
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parece um almoço de domingo como tantos outros que acontecem ao mesmo tempo na cidade e no mundo. moleque jogando videogame. "não, duque", grita a menina pressionando uma bochecha do boxer com o joelho. "olha o café", oferece a outra. são cinco tias, duas sobrinhas, maridos, um neto acrescido do amiguinho, genro, bisa. intrusos, nós. solidários. na cama a mulher recém-operada recebe presentes, beijos cuidadosos e alguns olhares piedosos que a incomodam. acende um cigarro. a-vida-é-minha-e-eu-faço-dela-o-que-eu-quiser. há no ar um clima quase de aconchego. abraço algumas pessoas com o olhar. sinto saudade, medo, curiosidade. dó. porque o desconhecido é tudo aquilo que nos une e nos iguala.

Saturday, May 27, 2006

27 de maio

a vida mágica me leva a companhias surpreendentes, com croquete na villaboim, capeletti na franklin roosevelt e festa caipira em são bento do sul. incrível como pessoas passam com rapidez, o acaso escolhendo quais devem ficar e aquelas que, de um jeito ou de outro, vão simplesmente desaparecer: pluf.
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27 de maio - previsão do tempo:
dia ensolarado, com temperaturas acima da média (não precisa levar casaco, e você ainda vai passar calor com essa meia-calça fio 80. depois não diga que não avisei).
27 de maio - seu horóscopo:
você vai se sentir como num filme de fellini, onde cornetas berram e interrompem beijos românticos no bexiga, balões atravessam a rua lotada nos jardins e um pote de sorvete derrama gosto de baunilha num passeio aparentemente banal. dia propício para trotar de braços dados e observar a cidade do alto de uma janela obscena. e se o ser humano é mesmo a única espécie capaz de inventar lembranças, é dever cívico sair e criar boas memórias.

Monday, May 08, 2006

inferno astral

quando deu pra ouvir o barulho da pancada, que acertou com pontaria a base da cabeça e fez espirrar sangue em uns poucos papéis, a vontade que me deu era de fugir. de sair veloz como quem disputa uma corrida ou persegue o inimigo. e com uma frente de alguns metros de vantagem, fazer como nos filmes e dobrar esquiva uma esquina escura, respirando arfante encostada ao beco com cartazes e latões de lixo prateados. mas o clarão e a ferida aberta latejavam. e tudo que o pouco raciocínio sobrevivente à hecatombe permitia vislumbrar era a nítida necessidade de desaparecer. acima de desejar, eu tinha que correr. com uma mão apoiado nos joelhos moles, ergo a cabeça para preparar a posição de arranque. preparar, apontar... alguns cabelos estão grudados no contorno da orelha, outros formam uma pasta gosmenta na gola da blusa. soluços barulhentos começam a lamentar minha condição. repentido: meu único desfecho possível é a fuga. e ensaio o primeiro passo, dois, três, e agora estou trotando desengonçada uma marcha atlética risível e pouco eficiente. assim ela vai me alcançar. ou eu vou acabar me entregando. aqui estou, venha me pegar. não revido, você venceu. até porque, confessemos, ia ser bem difícil sumir de mim mesma muito tempo.

Wednesday, May 03, 2006

vazio


porque tão linda assim não existe
a flor
nem mesmo a cor não existe
e o amor
nem mesmo o amor existe

Monday, April 17, 2006

welcome to rio

você sabe que está indo muito para o rio de janeiro quando a tia da limpeza no graal de resende te cumprimenta. e ainda te chama pelo nome.

você sabe que está no rio de janeiro quando passa na porta do boteco e um mané, ao ritmo de um som obsceno, elogia quase na sua orelha: tchu-tchu-caaaaaa.

você sabe que voltou do rio de janeiro quando desce do ônibus e dá de cara com um simpático termômetro de rua: 13°.

Thursday, April 13, 2006

16 de abril

no último dia, ela foi passear e encontrou um siri azul. achou graça. se chacoalhou inteira, pança, olhos, e quis levar o siri pra casa. corina gostava de esmaltes cor-de-rosa cintilante, pão sovado e viagens longas. colecionava tuppewares, sapatos, netos. ciclotímica, fascinante. gaúcha morena que fui conhecer já loura, riu pra mim com bandagens na cabeça depois de uma cirurgia plástica e a criança pôs-se a chorar. chorei muito por sua causa, a propósito. no dia em que entupi o banheiro azul e levei bronca - achava que a rusga duraria uma eternidade e, por isso, a enchi de pães de queijo na volta da escola: dá o dedinho? espera marido, lasanha, bolo de batata e bife a milanesa. cadê meu helena rubinstein? dizia quá quando o assunto encerrava ou virava nó, proclamava assim como são as pessoas são as criaturas. como? assim, ué. um, dois, três, nove, dezesseis: paparicava todos, pendendo leves distinções que em nada melindravam ninguém. afinal, fomos uma equipe. o time engenhoca, machado afiado com pedra do norte e cerne militar. um doce sargento. que amava pulseiras, produtos da avon e dobermans pretos. no último dia, quis levar o siri pra casa. não deixei, enlouqueceu? vamos desligar a tv e jantar ao som de música brasileira. rir da hebe, cochilar na poltrona e colocar o relógio para as sete da manhã. só eu acordei. eu e uma saudade incrível de você.

Tuesday, March 07, 2006

ontem

era como se dela vazasse uma luz cor de laranja. com ilustração de margaridas vivas. ontem, tanto brilho e era como se ela e outros pedestres não pudessem habitar um único quarteirão, dois corpos disputando o mesmo lugar no espaço. carros buzinam. e displiscente ela abre um guarda-chuva velho, amarrando uns fios de cabelo num elástico que pesca de dentro da mochila. debochada, a maldita. sorri para um homem que atravessa a rua e prum outro que calcula o peso na balança - de onde logo desce, prudente-envergonhado. atravessa a rua correndo num dedo só, faz graça e freia em frente à kombi de operários. sem sandálias pra pisar a chuva, queria mesmo era bailar num temporal de raio e relâmpago. balança a saia na cadência das caixas que quase roçam tímpanos, lá-vem-ela, a louca. o cachorro cala a boca, um pipoqueiro perde a rota e um moleque quase aplaude. membros do júri, senhores: havia motivo pra tanta alegria?

Thursday, March 02, 2006

plágio

são paulo hoje me dói. com as mesmas medalhas ópios édens analgésicos de leminski. se ainda eu carregasse alguma coisa ou fosse elegante. são paulo ainda me chove, inunda. se ainda estas palavras fossem minha última - ou qualquer outra - obra. e de que servem as poesias senão como inspiração ou consolo? assenta, poeira, que eu só quero caminhar.

a falta que ele me faz

mas já nem é mais carnaval, continuo sendo da maneira que você me quer, a vila é campeã e eu aqui quase morro de saudades do rio de janeiro. depois de uma folia com asa-delta na pedra bonita, banho de mar em grumari, chuveirada no diabo, bloco na orla e 96 horas da companhia mais querida do namorado, o pouco que sobrou se resume não só à quarta, mas sim uma semana-inteirinha-de-cinzas. último dia carioca, andando no calçadão de copa vinda de uma ótima praia no arpoador, vi um sujeito cutucando azulejos com um algodãozinho na mão. chegando mais perto, a arte: vários mini-quadrinhos estendidos nas pedras portuguesas (sempre elas), cada um com um retrato diferente, de diferentes cantinhos e paisagens da cidade. fui certeira na pedra da gávea. com isso - e com a areia que veio grudada no vestido de praia - trouxe na mala um pedaço dessa cidade feiticeira, amor pra sempre, e que, só por um pouquinho-bem-ligeiro, ainda deve ficar à minha distância. até que chegue a semana santa, saudades do rio de jane, kiko e lucas, de racca e adi, de silvinha e xuxu, de rita e andré paixão, de canastra e los hermanos, de ana-carolina-lins-martins e molina-clearwater. e de você, meu anjo, buraco maior que me enche (esvazia?) o peito de eco, expectativa principal por tudo que ainda virá.

Thursday, February 23, 2006

com o pé esquerdo

atravessando a sala de costas, alcancei a porta e, ao invés de destrancá-la, selei à chave o apartamento, apertando o botão do elevador. pra cima. os carros corriam as ruas com seus motoristas debruçados no banco do passageiro, braço de apoio, todos olhando para trás ao conferir o trajeto a ser percorrido. na marcha à ré. o ônibus, peguei pela porta traseira. no trabalho, um até amanhã no lugar do bom dia. torta, integralmente do avesso, acordei com as entranhas à mostra, girando num display de exibição. escondendo com a mão pulmões, vísceras. e coração. olho pra dentro - é fácil nessa situação - e, conformada com o erro de diagramação, hipnotizo o relógio esperando que a sexta-feira iminente corrija o incômodo. estúpida. como eu poderia esquecer que as horas, hoje, andam pra trás?

Friday, February 17, 2006

contagem regressiva

"a saudade é tanta que estou com medo de, com meu abraço, partir você ao meio"

falta uma semana exata para o reencontro

Thursday, February 16, 2006

excentricidades VIII

- pediram que eu mandasse um currículo, três fotos produzidas em estúdio e a definição, em uma palavra, do meu gosto musical. parece que vão começar a chamar para os testes de vídeo a partir de um banco de dados feito com base nesse material enviado pela galera.
- bem, se você não botar "eclético", tá dentro.
- pois é.
- aposto que esse banco de dados é feito justamente pra isso.
- para filtrar as pessoas?
- não, para filtrar os ecléticos. ele lê quem definiu seu gosto como "eclético" e deleta. pode escrever qualquer coisa, mas não me coloca um "eclético", senão você vai desaparecer dos arquivos. pra sempre.

Tuesday, February 07, 2006

bem-vindo a são paulo

para que alguma coisa surja, é preciso que outra desapareça. a primeira configuração da esperança é o medo, a primeira manifestação do novo é o horror.

da janela não vejo o corcovado.

Thursday, December 22, 2005

outdoor

someday there'll be a cure for pain
that's the day I throw my drugs away
when they find a cure for pain

é uma dor física, que sobe do esôfago até a base da língua, amarga ausência de todas as referências. cada um exposto à sua maneira, você sobrancelhas sorrindo evoca um passado ainda corrente, eu espectadora de quem um dia significou tudo e agora, displiscente, renasce para um percurso sem linha de partida. sinto: quebrada ao meio. descomposta, desconstruída, despida de nós dois. você: buraco, eco, saudades. muitas.

Tuesday, December 13, 2005

carta de amor

sobrevoei a cidade e cacei casas na paisagem miniatura, encontrando telhados conhecidos e familiares para sentir que, mesmo de cima, pode-se, sim, acreditar no sonho do lugar perfeito e seguro. casa no campo, e eu mirando brechas e clareiras naquela quantidade obscena de montanhas desconhecidas e indevassadas, riachos nascendo não se sabe de onde, lagos obstruindo de maneira inteligente rotas e caminhos (até então) possíveis e desbraváveis. mas havia um, note bem, um apenas, um lugar daqueles com os quais você sonha e brinca de fazer música, bancarrota blues com nossos discos e livros, e nós dois, eu-você, desenhando sinapses cor-de-rosa para arquitetar o canto onde toda a obrigação do mundo fosse ser - e fazer - feliz. um, um lugar. com uma pequena estrada de terra que vira lama quando chove e nós não nos zangamos ou franzimos testa punho cenho, todo o trabalho vira calçar galochas e rir um do outro você parece um palhaço com esses pés plásticos e nada nunca caiu tão bem nos teus dedões de bailarina. às vezes acontece de ter que empurrar o carro, ou esquecer da vida e do jipe lá embaixo quem é que precisa de um motor no meio desse mato, no meio do silêncio cigarras agudas guinchando em mi menor. eu, não. eu preciso de você. das nossas janelas de madeira e cachorros plantando patas de terra na parede branca isso não tem a menor importância acho graça até. é dividir o tempo entre assistir você criar numa sala só sua de acústica violenta a cada acorde teu voz piano violão guitarra respiração dói a boca do estômago de quem escuta, e vez em quando eu produzir romances e romances e romances enchendo a varanda com a conversa das teclas olivetti 82. nossas referências todas numa larga estante de carvalho pendendo de uma parede fresca grudada à cozinha de onde saem aromas de tangerina manjericão, som de pratos colheres e amigos. olha, tem um cobertor em frente à lareira e copos cheios de vida. no eco silencioso de quando se apagam as luzes para irmos dormir tudo que se escuta são as nossas risadas. no escuro, a gente engolindo alegria. agora eu vivia o que sempre sonhei. agora eu era o que sempre fui.

Thursday, December 01, 2005

excentricidades III

- sabe como você faz para ver a direção do vento daqui de cima?
- olhando o movimento da água?
- também, mas o melhor é sacar as vacas.
- ãh?
- é, sacar as vacas. elas sempre pastam com a bunda virada pro vento.
- ...

Friday, November 18, 2005

excentricidades II

conta o povo que foi a belém que lá na região há um prato típico chamado tucupi. ok, eu já tinha ouvido falar, você já deve ter ouvido falar, minha mãe e sua vizinha idem, mas a questão é que a iguaria guarda detalhes escusos por trás desse nome. trata-se de um molho de cor amarelada, extraído da raiz da mandioca brava que, depois de descascada, ralada e espremida, oferece um líquido, que deve descansar ao longo de uma semana. a questão é que a parada é, inicialmente, venenosa. isso mesmo, o molhinho é do mal. tamanha letalidade se deve à presença, em sua composição, de um ácido chamado cianídrico, e é só através do cozimento do líquido que se elimina o tal veneno (sendo possível, então, usá-lo - o líquido, e não o veneno, óbvio - como ingrediente nas receitas). ontem, entre o chope e o bolinho de bacalhau, o café e a banana frita, começamos a especular: será que quando os donos de restaurantes de lá querem eliminar seus desafetos eles deixam o tucupi cozinhando por apenas quatro dias? e, medo, será que é seguro comer esse negócio em qualquer biboca de belém, correndo o risco de morrer em decorrência da preguiça de um cozinheiro imprudente? e os microondas paraenses, será que eles vêm de fábrica com, além dos clássicos "modo pipoca", "modo 1 minuto" etc, uma tecla onde se lê "modo tucupi"? tipo, você põe a mandioca dentro do forno e ela fica lá rodando por uma semana?

Tuesday, November 08, 2005

linda blair

novamente possuída pela entidade exu-tranca-texto. merda.