Monday, July 30, 2007

orlando

a viagem era no tempo e subaquática, um luxo de tecnologia, e ia dar numa praia como qualquer outra. ainda pingando sal, por vontade própria ana ergue a pá acima da cabeça e dá um golpe certeiro na caixa de madeira que emerge instantaneamente da areia, na beirinha da água. tem forma de caixão daqueles de anjinho, quase sem acabamento, como se a pouca vida não justificasse o trabalho e o gasto com ornamentos. um par de botas de marujo pretas, de um material entre o vinil e a camurça, que ela puxa excitada de dentro do invólucro e imediatamente enfia nos pés. ana é a única menina na terra onde só os homens sobrevivem. quando o primeiro inspetor passa por ela, já longe do mar, ana estica o braço direito em uma saudação quase nazista, segurando a respiração por medo de que até seu fôlego transpareça feminilidade.

Monday, June 11, 2007

simpatizantes

de regata justíssima, os ramones com botox no tecido esgarçado, apanhou o ônibus pra região dos jardins. fez festinha pro cobrador, que resmungou alguma coisa e devolveu o troco. acabou se perdendo do grupo, manifestou sozinho e quase rolou a consolação depois de um toco do cara do isopor de cerveja. na dispersão, suspirou.
morreu ali, em frente à praça roosevelt, aconchegado no cachecol de penas roxas.

Monday, June 04, 2007

caran d'ashe

quis dizer a ele minha aquarela inteira. ou no mínimo fazê-lo saber que havia uma perspectiva, um tema livre, qualquer coisa que o valesse. só saíram rabiscos sem nexo e um engasgo desbotado.

a vida é uma caixa de lápis de cor.

rem

dessa vez a gente foi pra guerra de canudos - embora houvesse um prédio modernoso com pinta de atualidade. entre um andar e outro, na escada de serviço, dava pra ouvir a preparação dos soldados inimigos que iam descer pra nos atacar. a brilhante idéia de sair correndo foi minha e, quando vi, já pulava trincheiras e alguns defuntos recentes. foi quando fisgou o ciático num zunido e eu, que nem sabia que estava pelada, olhei pra bunda e vi o estrago: três tiros em lugares diferentes sangravam desde o cóccix até o calcanhar. a alforria, a volta pra casa, e de teleférico procurávamos, eu e o casal famosíssimo, um hospital pra extrair os projéteis. os globais ficaram na gávea, e segui subindo até a parada de porto de galinhas, onde o maquinista fez o favor de esquecer minhas malas de viagem. mamãe montou lépida na bicicleta e pedalou a ladeira com o comprovante de babagem em mãos. enquanto ela não voltava, inventei o passatempo: com a ponta da bic preta cutucava os buraquinhos alvejados, borbulhando o sangue e encostando a pontinha na bala pra dar barulho. a população local aplaudiu chocada.

Friday, June 01, 2007

café

é no "já vou" vazio que fica claro.
aflita, engole o vácuo e quase levanta, suspensa cheia de ar. agora aperta e assopra a caneca azul entre as mãos, fazendo ondinhas no café.

- voltei a roer as unhas.
- tinha parado?
- não sei. comecei a roer depois de você e, quando vi, tava nessa recaída.
- põe açúcar.
- tem açúcar, já, você me ofereceu antes. até girou a colherinha.
- lembrei.
- então, se você não estiver fazendo nada, pensei qu
- mas eu tô fazendo, sim.
- desculpa, não deu pra ver.
- não tem problema. é só que eu tô ocupado mesmo.
- lembra que você achava que era um disco voador quando nos despedimos lá fora? já eu, eu tinha certeza de que era algo a ver com fogos.
- queria te ver rir, tonta. fazia tempo, a última vez tinha sido dos chinelos, acho.


- você nunca respondeu minhas cartas.
- é porque nunca soube o que responder.

quis meter os dedos por baixo de um daqueles caracóis, mas achou impróprio. espalmou as costas magras, apoiando o dedão numa costela feito corda de viola. os peitos se espremiam e talvez os quadris fizessem força. não tocou sequer uma música, nenhuma luz brilhou ou mesmo alguém percebeu aqueles dois costurados num abraço mongo. entraram para os registros em silêncio, como qualquer outro acontecimento incrível de ordem galáctica. do banal para a efeméride foram apenas quatro segundos.

Friday, May 04, 2007

há um ano

dearest,

dia doido (e quase doído), esse. minha cabeça gira, as idéias transbordam e eu quase não tive tempo ainda de abrir todas as caixas e plantar em solo desconhecido todas as minhas referências órfãs. já há porta-retratos e livros em cima da estante, um perfume dentro do armário e o aparelho de som no aparador. mas não há eu ainda, entende? um japonês canhoto e habilidoso apertou minha coluna hoje de manhã, eu com a cara afundada naquele buraquinho da mesa de massagem. incrível o barulho quando o sujeito me torceu feito pano sujo, vértebras soltando e um alívio que eu quase já não esperava. descobri, me perdoem os judeus, que os japoneses são, eles sim, o povo escolhido. que hosh-ashaná o quê, salvação do mundo mesmo são o sushi, o feng shui, o hai-kai e, claro, o shiatsu. trabalho ainda engatinhando, e uma distribuição com fúria de currículos para todos aqueles que eu ainda conheço nessa cidade quase-desconhecida. algum resultado, oxalá? hum. preciso tirar umas fotos para mandar para a MTV e definir, numa palavra, meu gosto musical. preciso estudar a política do estado de são paulo para passar no teste da folha. preciso ler a história do brecht e do grupo galpão pra não fazer merda na matéria da bravo. preciso. eu preciso de você, ia dizendo. de você e sua risada frouxa, seu cheiro escondido dentro da porta do canto no armário do espelho. sometimes i miss you so badly that i just can't stand it. o rapaz falava isso no filme ontem. e eu lembrava você. adaptação esquisita, sinais bizarros (e eu que sempre adorei acarajé) e me guardando para quando o carnaval chegar. canastra canta semana que vem, vovô jagger também, e ainda parece que franz ferdinand vai fazer show no circo voador dia 23. da janela não vejo o corcovado.

love,
m.

Saturday, April 21, 2007

sonho

a gente estava no velório do rocky, o lutador. mas ele claramente se mexia dentro do caixão - quem não via a respiração tava fazendo muito de conta. aí depois era um hospital psiquiátrico, e cada um tinha sua cama, e parece que alguém ia fazer um xarope de água sanitária e todo mundo tinha que beber. aí teve uma luta, a gente combatendo uma vilã, e depois uma cerimônia linda linda num páteo enorme, com todos os louquinhos com roupa de festa recebendo condecorações. saí descendo uma ladeira, experimentei na cabeça um chapéu do inspetor clouseau, e me despedi de um professor gente boa, que tinha o mesmo endereço de email que minha sogra. ele pedia pra gente escrever sempre que desse, e eu não conseguia parar de olhar pro seu nariz batatudo e cheio de cravos. meu marido dizia que ia levar aquela guria morena prum motel - mas era jogo rápido de verdade, que eu não me preocupasse, logo estaria de volta pra me levar ao cinema. eu paciente - de paciência, e não doença - fui dar uma volta, colhi três mini-flores-de-canela, e coloquei no vaso que tinha na boca. o celular de alguém tocava, e a gente ficava sabendo que só depois das dez da noite ia ter a liberação do corpo médico.

Tuesday, April 17, 2007

trecho (ótimo) de um conto (nem tanto)

"(...) e me olhou de alto a baixo, sem me dar nenhuma palavra, mas eu também não estava interessado no que ele estava pensando; o que os outros pensam da gente não interessa, só interessa o que a gente pensa da gente; por exemplo, se eu pensar que sou um merda, eu sou mesmo, mas se alguém pensar isso de mim o que que tem?"

Friday, April 13, 2007

cross stance

eu nunca tinha reparado nos seus joelhos.
na minha cabeça, você era, até então, quase só um amontoado de imagens ancoradas a impulsos elétricos que faiscavam a boca do estômago. e, antes que houvesse articulações ou quaisquer outras coisas que dobrassem, havia maçãs e sobrancelhas. aí vieram os joelhos. porque ficamos sentados frente a frente por uma hora e alguma coisa, entediados com aquela encenação burguesa e vazia, e o olhar flutuou três minutos até descansar nas cartilagens redondas onde suas pernas fazem esquina. brilhando. você ir embora: esvazio e murcho. as panturrilhas caminham levando embora. odeio quando seus joelhos me dão as costas.

Sunday, April 01, 2007

mimo

se tivesse comprado a kombi como eu queria, e ignorado o veto de deolinda, ela hoje estaria rodando vazia. a kombi, não deolinda. disse pra quê sete lugares se tu só conhece três pessoas e eu até resmunguei e tals, mas no fim gamei na brasília sete-seis, e assinei o cheque. não que não gostasse mais da perua, que até duas cores tinha. preto embaixo, branco no teto. era minha predileta entre todos os carros expostos no páteo, mas deolinda era ela, sim, a preferida. entre nós, eu digo. e, assim, desisti da kombi, porque no fundo eu sabia que ela estava com a razão. eram, afinal, três as pessoas que eu conhecia. meu pai, primo cícero e ela, deolinda. dava num fusca, inclusive. aí, como é sempre melhor ver deolinda rindo, fiquei com outro carro mesmo. até porque cícero nunca aceita as caronas que ofereço, meu pai diz que prefere ir andando e só deolinda mesmo acaba usando o banco do lado. e o de trás, quando quer falar que tem motorista.
ia ser muito bonito eu dirigindo a kombi.

queria que ela rodasse sozinha.

deolinda, não a kombi.

Sunday, March 18, 2007

recife

rumo ao caos rubro
imensa sangria
instável compasso
partiu você
instantânea fotografia
de nuances equilibradas
que tornariam o ser
eu mesma
sustenido de mim

Tuesday, January 16, 2007

madalena

meu amor perguntou
“hoje é dia fértil?”
ao que respondo positiva
de súbito corro e sento
à máquina
fertilidade não se desperdiça assim

à toa

Tuesday, November 07, 2006

msn

"mas é engraçado que, para mim, você ficou para sempre associada com prazer ensandecido, com alegria rasgada, com furacão e sol. isso é uma das belezas da vida. ninguém me tira toda a alegria que você me deu, todo o espanto."

Thursday, October 19, 2006

sonho erótico - ou quase

abaixo ao sanduíche
que am-pm que nada
dormi de barriga vazia
e eis que,
no meio da madrugada,
ao invés de bicho-preguiça,

recebo visita ilustre:
jack white em pessoa
jogado no chão entoa
uma canção pra mim

Wednesday, October 18, 2006

oficina

ei, zé.

a paisagem hoje está um escândalo, o rio de janeiro dói.
recebi todas as (lindas) mensagens.
aqui me deliciando com os textos, fotos e gracejos do povo antropófago. olha que vou baixar em santos pra comer tudo e todos, entregue para o banquete. estou me arrumando, se prepara... a matéria do nelson ficou, foda-se a modéstia, excelente. louca pra saber sua opinião e transar cada vez mais conhecimento sobre o assunto. fiquei até três da manhã arredondando o texto, que fecha o último parágrafo com (ótima) frase tua. deve estar nas bancas por volta do dia 6, e acredito que a edição vá ser generosa conosco. oxalá.
vou hoje mandar email para roberto oliveira sobre medéia. vai ser perfeito te dar um beijo antes do evento em são paulo, e ainda em terras cariocas, o que embeleza ainda mais o cenário do encontro. descobrirei detalhes e te escrevo para combinarnos de nos ver.

que acha?
olha, morri de alegria com nosso telefonema segunda à noite. que saudade doída, muito tempo longe de você, o rei já cantou isso. vê se não some nunca mais da minha vida, isso não se faz. adoro nossas conversas, alimentam e fazem crescer.

com amor,
m.

Tuesday, September 26, 2006

i'm only sleeping

câmera: ao vivo com você em 3, 2, 1...
repórter: maria das couves deu à luz um casal de gêmeos, digamos, diferentes. as crianças, que nasceram numa maternidade em são paulo, vêm sendo descritas como bebês-panda, embora sua aparência lembre mais a dos bicho-preguiça. isso porque X e Y, que não tiveram seus nomes reais divulgados, apresentam longas garras tanto nas mãos quanto nos pés. a mãe optou por amputar as afiadas unhas apenas das mãos da menina, por razões ainda desconhecidas. como qualquer bebê, X gosta de ser embalada no colo dos pais, amigos e até mesmo estranhos que se disponham a segurá-la. afinal, é preciso coragem para enfrentar o risco de, num acesso de irritação da criança, ter sua barriga e pernas perfuradas pelas garras pontiagudas.

estação clínicas

a mulher no metrô chora. joana-qualquer de costas para o fim da linha, contorcendo dezenove músculos para fazer escorrer um único fio de sal: como se diz órfão ao contrário? foi às compras no sacolão pinheiros, onde pescou calças jeans puídas nos joelhos, camisa de missa cor de abóbora e um par de tênis. novos, como pede a ocasião. a mulher no metrô seca as rugas com os dedos sujos, os mesmos que empurram cabelos para dentro de um coque assustado. escada rolante, extenso corredor, e um suspiro profundo antes de vestir meu filho pela última vez.

Monday, August 21, 2006

antigamente

carioquices à parte, lanço um "vamos combinar" e meio que desencano.
melhor assim, não?

etcetera é uma palavra linda.

Thursday, July 13, 2006

all the places i remember

saudade incontrolável do rio de janeiro

Monday, July 10, 2006

de emendas - e sonetos de amor

senhores deputados, tenho certeza de que é um projeto pertinente. enquanto já criamos e aprovamos licenças trabalhistas voltadas para o benefício de cidadãos recém-casados, mães, pais, funcionários enfermos e/ou em tratamento médico, penso que é chegada a hora de certificarmos mais um desdobramento nesse ínterim. dirijo-me aqui àqueles que podem compreender o vulto de minha colocação: quando os senhores solteiros dão início a um relacionamento, digamos, "firme" - posso utilizar palavras desta sorte em tão nobre e pomposo espaço como nossa câmara? - desejam, certamente, dispender da maior quantidade de tempo possível ao lado da pessoa em questão. no entanto, momentos importantes como o despertar ou a tarde chuvosa debaixo dos cobertores podem ser prejudicados visto que ambos os cônjuges precisam atender a suas obrigações trabalhistas - e, conseqüência, abandonar, com o perdão da saliência, o "bem bom" de uma relação fresca. minha proposta é aprovarmos a licença-namoro, que beneficiará essas pessoas com uma semana de afastamento de seus serviços, sem desconto na carteira. assim poderemos evitar um alto índice de abstinência por doenças forjadas e/ou imaginárias, que vêm em sua grande maioria para suprir e justificar o bom aproveitamento destes tão importantes momentos ao lado do sujeito amado. opiniões?